“Entre uma pia de louça suja e as lições escolares”: por uma feminilização do mundo do trabalho

Teletrabalho – Fonte: Pixabay

 

Na semana passada, falei um pouco sobre os discursos de invisibilidade do teletrabalho e, como a temática é complexa e as dificuldades do homeoffice estão na ordem do dia, resolvi continuar abordando o assunto do ponto de vista feminino.

Uma paciente, cujo regime de trabalho migrou exclusivamente para o teletrabalho por causa da Covid-19, me relata que realiza suas atividades “entre uma pia de louça suja e as lições escolares”. Uma outra me diz que se pudesse escolher, só aceitaria o homeoffice se houvesse escola disponível para deixar os filhos.

Se até bem pouco tempo atrás o teletrabalho “invadia” a vida doméstica, com a consequente “transferência de custos, a cessão de espaços de casa, a acumulação de tarefas e o excesso de horas trabalhadas” (COSTA, 2005), gosto de pensar que hoje a vida doméstica “invade” o mundo do trabalho de uma maneira peculiar e com consequências indeléveis.

As crianças, os cachorros, os ruídos e a intimidade do lar se fazem presentes no teletrabalho, o que não é necessariamente ruim. Isso “deixa à vista” a ginástica equilibrista que as mulheres faziam e fazem cotidianamente para lidar com as exigências domésticas, da família e as do próprio trabalho. Isso deixa evidente o invisível desequilíbrio de forças sociais que operam no sentido de fragilizar e esconder as mulheres, dificultando que elas ocupem seu lugar e sua identidade laboral.

O mundo do trabalho sempre foi do masculino, do local público, com horários fixos, de carreira para toda a vida (COSTA, 2005), e mesmo no mundo contemporâneo, muitas são as desigualdades entre os gêneros.

Mesmo com maior escolaridade, as mulheres tendem a ganhar menos que os homens, têm menos acesso a cargos de gestão e liderança, são menos ouvidas e reconhecidas nos trabalhos em equipe, opinam menos nas decisões. Muitas delas, para terem “seu lugar ao sol” acabam por negar sua condição feminina, se masculinizando nos comportamentos e vestimentas do mundo corporativo.

Historicamente, foi o espaço privado, o doméstico que ficou reservado para as mulheres e também as profissões “altruístas” da educação, do cuidado, da caridade, nas quais não se pode cobrar caro ou ter lucro. Aliás, às mulheres não se foi ensinado cobrar, mas trabalhar voluntariamente. Raramente se vê um homem nestas mesmas condições. Os homens não se sentem culpados em ganhar dinheiro (GUTMAN, 2018).

Novamente digo, não sei onde toda essa mudança vai nos levar, quais os caminhos possíveis serão construídos, mas acredito que o momento nos impõe uma reflexão cuidadosa como sociedade para essa questão – que é ampla e passa por representação política, por políticas de proteção à mulher, à infância e de educação.

Realmente torço para que haja uma mudança de cultura laboral na qual a lógica qualitativa seja tão valorizada como a lógica quantitativa. Espero mesmo que haja a incorporação e o reconhecimento do feminino no mundo do trabalho, com mais possibilidades de acesso e redução das desigualdades de gêneros.

Referências:

– COSTA, I.S.A. Controle em novas formas de trabalho: teletrabalhadores e o discurso do empreendimento de si. Cad. EBAPE, volume III, n° 1, 2005.

– GUTMAN, L. As mulheres, a maternidade e o trabalho – Cap. 13. In: A maternidade e o encontro com a própria sombra. Rio de Janeiro: Best Seller, 2018

Original publicado em 01/07/20 no Blog Mirante: https://blogs.uai.com.br/mirante/2020/07/01/entre-um-pia-de-louca-suja-e-as-licoes-escolares-a-feminilizacao-do-mundo-do-trabalho-contemporaneo/

“Quem não é visto não é lembrado”: reflexões sobre os discursos da invisibilidade do teletrabalho

Teletrabalho – Fonte: Pixabay

teletrabalhotrabalho remoto ou homeoffice (que tem as variações em inglês, telework ou telecommuting), está associado ao trabalho que é realizado remotamente, por meio das Tecnologias de Informação e comunicação (as TICs), o que possibilita a obtenção dos resultados da profissão em um local diferente daquele ocupado pela pessoa que o realiza (ROCHA; AMADOR, 2018).

É uma modalidade de atuação que já vinha sendo amplamente utilizada por algumas organizações como forma de otimização do tempo e espaço nas relações de trabalho. São descritos na literatura diversos ganhos corporativos com essa forma de atividade, entre eles, a redução dos custos com espaço físico e infraestrutura; o aumento da produtividade e a diminuição do absenteísmo.

Para o trabalhador e para a comunidade são relatadas vantagens como a flexibilização da jornada de trabalho, a conciliação com as demandas familiares, sociais e de lazer, a economia nos deslocamentos casa-trabalho, a diminuição da circulação de veículos e a diminuição da poluição.

No entanto, frente à pandemia, o teletrabalho acabou se tornando a única maneira viável de se manter os ambientes de produção funcionando diante da imperiosa necessidade de distanciamento social. Só que, neste contexto, muitas vezes a migração do trabalho presencial para o trabalho à distância foi realizada às pressas, sem qualquer possibilidade de planejamento ou preparo das equipes.

O resultado desse processo é por vezes desastroso, pois acaba gerando conflitos e transformando as relações de trabalho em um ingrediente a mais no caldeirão de sofrimento que a pandemia pela Covid-19 já traz em si.

Nesta perspectiva, nos contextos laborais houve a proliferação de discursos do tipo: “Quem não é visto não é lembrado”,  “Seu trabalho não aparece”, bem como posturas de cobrança por trabalhos “supérfluos”, como a elaboração de relatórios antes desnecessários e também a exigência por presença em reuniões (presenciais ou virtuais)  “inúteis”, cuja função principal seria o trabalhador “ser visto”. Pelo outro lado, houve uma insegurança muito grande em ter que “mostrar trabalho”.

Seja por desconhecimento, falta de confiança entre as equipes, ou por qualquer outro motivo, tais posturas reforçam a necessidade de compreensão de um componente intrínseco ao trabalho remoto que é a invisibilidade. Sim, mas prescindir da presença física não significa prescindir da realização das entregas.

Assim, fica claro que o teletrabalho exige uma relação de confiança muito maior do que aquela que existe no trabalho presencial. As práticas de gestão devem valorizar a autonomia e a responsabilidade do trabalhador, e também ser capaz de priorizar os resultados alcançados e as entregas realizadas em detrimento da presença física.

Estamos todos tendo que rever e reinventar as nossas práxis. Ainda não sabemos para onde toda essa mudança irá nos conduzir. No meu íntimo, tenho a esperança que ela nos leve a um mundo laboral mais humanizado e a um fazer com mais sentido.

Referências:
  • COSTA, I.S.A. Controle em novas formas de trabalho: teletrabalhadores e o discurso do empreendimento de si. Cad. EBAPE, volume III, n° 1, 2005.
  • ROCHA, C.T.M; AMADOR, F.S.A. O teletrabalho: conceituação e questões para análise. Cad. EBAPE, v.16, n° 1, Rio de Janeiro, 2018
  • Home office – Porta do Fundos: https://www.youtube.com/watch?v=tCEQPzRNQ-k

Pet lover

Há algumas semanas falei sobre o tédiosaúde mental e a pandemia. Recebi diversos depoimentos e respostas muito interessantes, e até inusitadas, sobre como lidar com o cotidiano em isolamento que em breve contarei para vocês.

Por ora, gostaria de contar sobre o meu isolamento e como ele tem sido amenizado pela convivência com o melhor amigo do homem. Na verdade, com as duas melhores amigas: Lola e Liz. Lola é uma golden retriever e Liz é uma spitz, que acabou de ter o seu primeiro cio. Como costumo falar, uma é grande, mas acha que é pequena; a outra é pequena, mas tem certeza que é grande.

Na verdade, mesmo antes do isolamento, a presença delas na nossa vida foi uma grande revolução. Afeto, cuidado, lealdade, responsabilidade, atividade.

Quem não tem mais prazer em se exercitar quando se tem companhia garantida para a corrida ou caminhada?

Quem não fica mais sociável ao passear com o dog na rua e arrancar sorrisos das crianças e também conversas dos marmanjos?

Quem não se sente mais feliz por receber amor genuíno em troca de comida e alguns afagos?

Quem não desenvolve senso de autonomia e responsabilidade quando tem um ser que precise do seu cuidado?

Quem não se diverte com a certeza olfativa deles durante as refeições? Ou com as batidas dos rabos, com os latidos e com as lambidas nas demonstrações de afeto?

Quem não se gratifica por ensinar, escovar e brincar com um ser cujas respostas são imediatas e inequívocas?

Para o médico veterinário Luiz Gustavo Piroli Cabral, que é também meu irmão, os cães são considerados os melhores amigos do homem porque eles dão muito em troca de muito pouco. Ele enfatiza alguns estudos que demonstram os benefícios à saúde e desenvolvimento, ressaltando a cinoterapia (ou pet terapia) especialmente nos casos de crianças e idosos.

No entanto, alerta para o risco do antropomorfismo exagerado durante a pandemia, uma vez que, para muitas pessoas, os animais acabam sendo as únicas companhias e formas de contato afetivo direto durante o isolamento social. “A humanização em excesso dos animais domésticos também tende a gerar sofrimento nos bichos“, adverte.

Se você não tem o seu bichinho, prepare a caixa de lenços e aproveite a quarentena para assistir às minhas sugestões de filmes: Sempre ao seu lado, Marley e eu e Greyfriars Bobby, todas eles baseados nas lindas histórias reais entre os cães e seus donos.

Referências:

Escombros

Tanto nas abstrações
De amor e de memória
Quanto na concretude palpável dos tijolos
A destruição sempre fácil
O que ontem estava ali
Desaparece
Não existe mais

No equilíbrio tênue na margem da perenidade
Complexo mesmo é construir

 

Obs: Foto tirada em 30/06/20, na esquina da Rua Gonçalves Dias com Rua Santa Catarina, escombros da casa onde funcionou um restaurante de comida oriental por mais de 50 anos.

Herança

O livro
O batom
O vestido
O anel
A aliança

A senha
A bolsa
A sandália
A cadela
A criança

O suor
O amor
O olhar
As mãos
A dança

A viagem
A política
A caminhada
A gratidão
A mudança

O desapego
O pedaço
O luto
O firmamento
A lembrança