Dialética do amor

Na dialética do amor
Desperdício é a antítese
É viver separado

Num mundo em que as pessoas se procuram
A gente se achou sem esforço
No caos do universo
Era para a gente estar ali junto

Num mundo de tristeza
A gente foi feliz sem motivo
A gente se amou sem limites
A gente foi completo sem pretensão

Num mundo de superfície
A gente foi profundo
Aprendeu a nadar
Mergulho intenso no equilíbrio instável

Num mundo de pessoas sem tempo
A gente barganhou com a eternidade
Ganhou as horas, ganhou a vida
E brilhou os olhos
Luz no caminho

Num mundo mesquinho
A gente foi exagero
Vibração
Fomos pele, suor, saliva
Corpo, lágrima, gozo

Num mundo barulhento
A gente se entendeu sem palavras
Sem ruído
Sem pudor
No silêncio do olhar

Num mundo conservador
A gente fez revolução
A gente foi revolução
Foi esperança
Resistência
Inspiração

Na dialética do amor
A antítese é tudo isso

É a gente se enganar
Acreditando que vai encontrar
Noutro lugar
A verdade que por aqui está
Busca infinita
Basta olhar

12/06/20

Inesgotável

Você veio rápido
E foi indo embora aos poucos, devagar
Almas irmãs
Almas irmãs gêmeas
Núcleo fundido de alta densidade

O mistério do instante
A força monolítica
Iluminada pelo sentir

O caminhar sereno
Os olhos de fome
O olhar de desejo e de angústia

Há tanto amor no meu coração
O que é a felicidade?
É apenas uma palavra
O que é a eternidade?
É um momento
Breve riqueza da história
De emanar amor
É ruptura
Cura

10/06/20

Notas sobre a perversão e o discurso de ódio

“Não negocie com o mal. Jamais concorde, seja por pena, chantagem ou por qualquer outro motivo, em ajudar um psicopata a ocultar o seu verdadeiro caráter” (SILVA, 2008).

Há muito tempo queria ter escrito sobre perversão, motivada pela percepção de que parte dos sofrimentos da clínica estão relacionados a traços de comportamento que poderiam ser classificados nesta estrutura. Como bem descrito por Ana Beatriz Barbosa Silva, no livro “Mentes Perigosas”, o psicopata mora ao lado.

Eles estão por aí, transitando de um lado ao outro. Trabalham, se relacionam, se casam, se tornam pais, governam, mas, com frequência, há um rastro de sofrimento deixado naqueles que cruzam o seu caminho. E, no divã, há muito choro. Choro e, às vezes, paralisação.

Sem querer fazer generalizações, é como se o término de um relacionamento com uma pessoa de traços perversos deixasse um questionamento carente de simbolização. Da parte que sente, sempre resta a angústia, baixa auto-estima e questionamento sobre a verdade do que foi vivido, que, em última análise, é um questionamento sobre a verdade do afeto.

Isso porque a estrutura psicanalítica da perversão caracteriza-se pela ausência do sentimento de culpa, de vergonha e de inibição. “Não sou coveiro”. Na perversão, não há empatia ou qualquer tipo de afeto, a não ser com fins de controle e de manipulação. Há um completo desconhecimento do que se passa no campo do outro. Há indiferença. “E daí?”. O perverso mente com tanta convicção que chega a parecer autêntico. Mas até o seu lamento é sem emoção, protocolar.

O perverso recusa a realidade e a transforma de acordo com o seu próprio desejo. “Afinal, sou atleta.” E, neste processo peculiar de gozo, envolve outras pessoas e as transforma em objetos de uso para seu ganho pessoal de poder, status ou mesmo pura diversão.

O que percebo agora é que o sofrimento provocado pelo discurso da perversão, antes restrito à clínica, hoje extrapola e invade o tecido social. A ausência de comunicação mediada e de certo constrangimento em colocar em palavras o que se pensa nunca fez tanta devastação no coletivo. Claro, o individual e o social são aspectos indissociáveis, mas, no meio dessa pandemia, o discurso de ódio potencializa no todo o já inevitável sofrimento provocado pelo vírus. Eles não trazem esperança, conforto, credibilidade, confiança. Nada. Eles espalham o medo, a tristeza e o desamparo.

Todo perverso, cedo ou tarde, é pego na própria mentira ou é traído pelo próprio jogo de sedução. Mas, enquanto isso não acontece, tomemos o cuidado de não repetir, banalizar e legitimar esses discursos no nosso cotidiano. O discurso sempre é endereçado ao outro e, portanto, sempre uma forma de laço social. Questionarmos sobre a forma de apresentação dele, é, também, questionarmos sobre a forma de sociabilidade que estamos construindo no coletivo.

Ah, claro, “todos nós iremos morrer um dia”, mas quem precisa morrer antes de todos é o próprio discurso de ódio.

Referências:

– SILVA, A. B.B. Mentes Perigosas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
– RODINESCO, E.; PLON. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

Por trás das máscaras

Que há uma tensão constante entre o princípio do prazer e o princípio da realidade a gente sempre soube. Freud explicou brilhantemente sobre a operação dessa briga implícita na nossa psiquê. O que a gente não esperava é que o princípio da realidade se impusesse de tal forma e por tanto tempo, obrigando-nos a adiar nossas satisfações, projetos e sonhos.

E hoje, no contexto de pandemia da Covid-19, a presença ubíqua deste princípio se materializa no uso das máscaras. Sim, as máscaras de proteção individual transformaram a imagem estereotipada do doente imunossuprimido em nossas próprias identidades. Hoje o uso das máscaras nos torna iguais em nossa condição de vulnerabilidade. Somos a imagem um do outro. E os olhos, única porção facial da nossa individualidade, nunca revelaram tanto.

Hoje, frente a imperiosa e até pouco tempo desconhecida “etiqueta respiratória”, o uso da máscara se impõe como etiqueta do cuidado, individual e coletivo. Mesmo que alguns ainda as rejeitem, hoje elas se tornaram itens de primeira necessidade de um guarda roupa, quase ou mais importante que as peças íntimas.

Elas têm diversos modelos, e o design fica a critério e a gosto do freguês. De vários tecidos que vão do TNT ao algodão, passando por elastano e até o bom e velho “perfex”, elas realmente se tornaram a peça da moda. Tanto que podem ter um apelo mais estético ou uma “pegada” mais funcional. Elas podem ser fixadas atrás da cabeça ou junto às orelhas com o ajuste de elásticos ou amarração de laço de fita. Quando usadas junto com aos óculos de grau, podem provocar acidentes, já que o vapor tende a embaçar as lentes. Tenho sofrido deste mal. Deste e o de usar batom desnecessariamente.
Quando combinadas com óculos de sol ou com moletom de capuz, as máscaras nos tornam irreconhecíveis. Usar máscara junto com fones de ouvido é confusão na certa, um deles sempre acaba indo ao chão. Daqui a pouco, tenho certeza, teremos dispositivos que acoplem essas funcionalidades num único objeto.

As máscaras podem ser descartáveis ou laváveis. Podem ser profissionais, com filtro embutido. Podem ser lisas, listradas ou estampadas. Coloridas ou do time de futebol preferido. Podem vir com mensagens de paz ou com sorriso embutido para casos de necessidade e de absurdo. Podem ser estilo saruel (bem folgadinhas), skinny (bem justinhas) até saint-tropez (abaixo do nariz). Só não recomendo o modelo tomara-que-caia.

Há um tempo, quando trabalhei numa grande instituição bancária, o programa de qualidade de vida pedia aos trabalhadores que classificassem o seu humor cotidiano com o uso de um “termômetro” semelhante a um sinal de trânsito, afixado no computador de cada um. A cara do bom-humor (com sorriso para cima) era verde, a cara da neutralidade (com sorriso reto) era alaranjada e cara do mal-humor (com sorriso para baixo) era vermelha. Daí a gente já sabia se aquele dia era dia de conversar com o colega ou com o chefe.

Fico imaginando hoje como seria isso nos dias atuais. Cada trabalhador receberia seu kit composto por três máscaras laváveis e escolheria cuidadosamente seu humor do dia para ir trabalhar. Só nunca saberíamos se a cor da máscara escolhida revelaria verdade, pois por trás da máscara sorridente, poderia haver tristeza ou medo, ou por trás da máscara vermelha poderia haver necessidade de silêncio.

Mas, independente do caso, estaria operando ali o princípio de realidade.

Referência:
– FREUD, S. (1920). Mais além do princípio do prazer. Obras completas, volume 14, Companhia das letras.

TAEDIUM VITAE

O cotidiano. Ele já foi inspiração para muita arte e alvo de estudo e teoria dos mais diversos campos de saberes. Mas agora se materializa na realidade em forma de uma pia cheia de louça suja ou no convívio intenso com as manias alheias. Pois é, ele está bem aí, ou aqui, debaixo dos nossos olhos. Nu e cru.

A necessidade do isolamento nos colocou em contato íntimo com o cotidiano, a rotina, o dia-a-dia, a convivência intensa, a mesmice, a chatice, a rabugice. Estou eu mesma a um passo de descobrir que sou insuportável.

Os especialistas recomendam paciência, calma, tranquilidade, prudência, mas, convenhamos, difícil essa aula na prática. A não ser que já tenhamos encontrado a iluminação através de práticas meditativas avançadas ou sejamos a reencarnação de Dalai-Lama com Madre Teresa de Calcutá, uma hora a gente escorrega, tropeça, sai catando coquinho…

E haja arte para sublimar este intenso cotidiano!

Curiosamente, estudando sobre suicídio para uma palestra que darei na semana que vem, descobri que este mal não é recente e tem nome: “Taedium vitae”. O termo “tédio vital” ou “tédio de viver” foi retomado da Idade Antiga e descrito nos primórdios do Renascimento (entre 1580 e 1620) como a expressão de uma angústia existencial intensa.

Para George Minois (2018), “ele parece estar ligado às crises de civilização, aos momentos de alteração profunda dos hábitos coletivos e de questionamentos dos valores tradicionais, das convicções morais e das verdades estabelecidas nas esferas religiosa, científica e intelectual”.

Surpreendentemente, ilustra bem o nosso momento de crise mundial com nuances apocalípticas, temperada com a “criatividade” tupiniquim. Relacionando-o com o tema do suicídio, Minois (2018) afirma que, ao contrário da melancolia, o tédio vital não levou a muitas mortes, pois trata-se exatamente de um “estado de flutuar entre a vida e morte, numa indecisão sem fim”.

Para combater o tédio de viver e outras formas de loucuras, os renascentistas também foram sábios: “música, ar puro, exposição ao sol, odores agradáveis, iguarias aromáticas, vinho”, recomendados por Ficino ou “diversificar atividades”, “interessar-se por assuntos diferentes”, indicados por Burton.
Interessante que, passados mais de 400 anos, a “receita” para combater os males da alma teve poucas inovações. O campo saúde se desenvolveu bastante, com os psicofármacos e psicoterapias, mas, na essência, o enfrentamento do tédio vital vem da própria simplicidade da vida.

E você, como está lidando com tudo isso? Conte um pouco sobre o que está fazendo para lidar com o tédio e o isolamento.

Referências:
– MINOIS, G. História do Suicídio. São Paulo: Editora Unesp, 2018.
– Cotidiano – Chico Buarque: https://www.youtube.com/watch?v=plDmRyYjXgQ
– Tédio – Biquini Cavadão: https://www.youtube.com/watch?v=-PpAX1ISb_U
– Tédio – Porta dos Fundos: https://www.youtube.com/watch?v=kbzEDZG34_I