Escombros

Tanto nas abstrações
De amor e de memória
Quanto na concretude palpável dos tijolos
A destruição sempre fácil
O que ontem estava ali
Desaparece
Não existe mais

No equilíbrio tênue na margem da perenidade
Complexo mesmo é construir

 

Obs: Foto tirada em 30/06/20, na esquina da Rua Gonçalves Dias com Rua Santa Catarina, escombros da casa onde funcionou um restaurante de comida oriental por mais de 50 anos.

Herança

O livro
O batom
O vestido
O anel
A aliança

A senha
A bolsa
A sandália
A cadela
A criança

O suor
O amor
O olhar
As mãos
A dança

A viagem
A política
A caminhada
A gratidão
A mudança

O desapego
O pedaço
O luto
O firmamento
A lembrança

 

Fugitiva

“É isso então o luto. Ela tem a sensação de que um saco de cimento foi derramado dentro dela e endureceu. Ela mal consegue se mexer.” (Alice Munro, Fugitiva, 2014).

Aquele ano seria de muitas mudanças na vida de Amanda. Além dos 18 anos recém completados, o que a permitiria votar e dirigir, a entrada na faculdade era o que ela mais ansiava. Estava decidida. Iria cursar jornalismo. Já havia se decidido há muitos anos, não tanto pela vocação, mas pela possibilidade de mudança de cidade. Sim, ela não buscava tanto o curso, mas sim os novos ares da capital.

A escolha foi fácil. Por exclusão, foi eliminando da sua lista de preferências todos os cursos disponíveis nas poucas instituições de ensino da cidade. E, como sempre tinha sido boa em português, pela lógica, foi para as “humanas”.
Na nova cidade, ela poderia ser outra pessoa, ter uma nova identidade.

Poderia deixar definitivamente o passado para trás, abandonado há mais de trezentos quilômetros e num canto escuro qualquer da memória. Lá na capital faria novos amigos e poderia, enfim, fazer as pazes com sua história.

A verdade é que Amanda vivia há muito tempo atormentada. Durante toda sua infância, o trabalho de seu pai obrigava a família a mudar-se constantemente de cidade, o que por um lado era bom, mas na maior parte do tempo era ruim. Sentia-se sem raízes, sem amigos, sem vínculos.

Praticamente a cada ano era um recomeço. Nova casa, nova escola, novos professores, novos “amigos”, como dizia a mãe, para valorizar o lado bom da mudança e subestimar as dificuldades de adaptação da criança frente à necessidade de subsistência da família. Sim, a precária e instável renda do pai era a única fonte da família.

Acontece que nesta última cidade, Bom Destino, o destino resolveu não ser tão bom assim. Infarto fulminante. Aos 42 anos, o pai de Amanda faleceu sem tempo de despedida. Ela estava na escola, a mãe não quis buscá-la. Preferiu tratar a coisa com “naturalidade”. Amanda não viu escorrer sequer uma lágrima dos olhos secos da mãe.

À Amanda foi dada a opção de ir ao velório, o que ela recusou. Ficou em casa, calada, brincando com as bonecas. O que pareceu um tanto estranho para uma garota que já tinha completado treze anos na época. A vizinha, que havia ficado de sobreaviso, comentou o fato depois com a mãe da criança. Preocupada, preferiu evitar mais mudanças e manteve a estabilidade na rotina das duas naquela cidade.

No dia seguinte, Amanda voltou para a escola. Nenhuma palavra. Rotina normal. Ninguém soube. Nunca. Nem os amigos, nem os professores. Preferiu tratar as coisa com “naturalidade”. Os únicos problemas ocorriam nos eventos escolares, quando a presença dos pais era requerida. Ela nunca participava, não mostrava o convite para sua mãe e repetia a desculpa: “Meu pai não poderá vir. Está viajando”.

Mas, depois de quase cinco anos repetindo a mesma mentira, que ela mesma acreditava ser verdade, sustentar aquilo tudo sozinha ficou muito difícil. Ela precisava se libertar. Precisava respirar. Precisava chorar. E era isso que iria fazer.
*

O Imprestável

No alto dos seus 39 anos, André era um digno merecedor do Prêmio Nobel da Inutilidade. Até ali, não mostrava nenhum feito que pudéssemos classificar como válido ou proveitoso.

Nunca havia trabalhado ou dedicado seu tempo a um propósito que não fosse ele mesmo. Seu biotipo parrudo e hipotônico revelava um caminhar lento e vacilante.

Nunca tinha conseguido sair da sua condição de sedentarismo, apesar de algumas tentativas frustradas. Sua fala era vagarosa e acumulava saliva nos cantos da boca.

Nada o incomodava. Nem o sobrepeso que se formava na região abdominal, nem as rugas e os cabelos brancos que começavam a aparecer, muito menos a urina e as fezes do cão no tapete do seu quarto. Na verdade, só mobilizava certa irritação quando era acordado antes das dez.

Tinha uma estreita amizade com controles remotos e joysticks. Passava suas tardes e noites em frente a TV e ao computador jogando video-game, pois só Deus sabe como lhe era custoso vencer a própria inércia. Não diferenciava dia de semana de sábado ou domingo. Todos os dias eram igualmente vazios. Entupia-se de café, coca-cola e cigarro. Essa era a base de sua nutrição. Era mesmo um misto de preguiça com falta de habilidades.

Procurar emprego? Nem de longe essa ideia passava por sua cabeça. Nunca havia namorado. Sequer exibia desejo. Praticamente não saía de casa. Ainda morava com a mãe e com a avó. As duas o cercavam de mimos e cuidados desde a mais tenra infância.

O excesso de zelo e proteção escondiam um medo velado. Desde quando era criança, Maria sabia da incompetência de seu único filho e receava a sua falta de autonomia na vida adulta. Era evidente a falta de energia que André mostrava em seu precário e tedioso brincar.

A princípio Maria acreditava que André padecia de timidez crônica. Depois, teve convicção de que tudo aquilo não passava de uma “personalidade indiferente”. Sua avó, Dona Amélia, costumava profetizar aos quatro cantos:

 Esse mininu num vai dá em nada na vida. Imprestável.

E profecia de avó sempre se cumpre.

Na escola, aquele suplício. André vivia no mundo da lua, seu alheamento em relação aos estudos era nítido. Nada o interessava. Nem o conteúdo, nem os colegas, nem o lanche, muito menos as professoras.

Ano após ano foi sendo “empurrado” até seus 15 anos, quando, após sua segunda reprovação no sexto período, a diretora emitiu o diagnóstico. André tinha esgotado a sua capacidade de aprendizagem. Ali era o mais longe que conseguiria ir.

A mãe, farta que estava, se deu por satisfeita. Dona Amélia tinha razão: ele não ia dar em nada.

 

Da adolescência, passou incólume. Não teve conflitos nem rebeldias. Nenhuma necessidade de convivência em grupo nem impulsos de erotismo. Desta fase levou somente algumas marcas de espinha na face. 

Apesar de já ter desistido do filho, Maria nutria certa preocupação a respeito da sobrevivência dele após a morte da avó, já debilitada, e da sua própria morte.

O imprestável nada sabia das habilidades domésticas. Nunca conseguira abrir uma lata de milho ou descascar uma laranja. Não tinha amigos ou parentes próximos. Seus precários recursos linguísticos eram insuficientes para uma entrevista de emprego. Não tinha renda nenhuma.

Certa vez, a pedido de sua avó, André foi buscar pão na padaria da esquina, que era a distância mais longa que seu fôlego e seu ostracismo permitiam.

Lá dentro, deu de cara com uma figura interessante. Uma mulher. Uma bela mulher. Bronzeada, saia indiana longa, cabelos encaracolados presos por uma tiara colorida, bolsa rústica cruzando o corpo, sorriso aberto, dentes branquíssimos.

Ele percebeu cada detalhe dela com uma nitidez quase cegante. Os olhares se encontraram com certa reciprocidade e lhe deu vontade de se demorar um pouco mais naquele marrom. Ela sorriu expansivamente e disse:

– Oi. – E estendeu a sua mão com seu cartão de visitas onde estava escrito “Quirologia” e seu número de telefone logo abaixo.

Ele respondeu no susto, pegando o cartão com certa apatia:

– Oi. – E, voltou-se para a saída, esquecendo o pão para trás.

Chegando em casa, olhou mais uma vez o cartão e, como se aquilo fosse uma banalidade, o atirou no lixo. E ainda teve que ouvir da avó o quanto era imprestável, pois voltara da padaria sem os malditos pães.

O que dona Amélia não sabia é que André acabara de experimentar, por breves instantes, uma pequena abertura no portal de brilho e emoção que uma vida pode ter. Mas não. Não deu importância, não soube reconhecer, não tinha recursos para saber disso tudo.

Foi a última chance na vida que André teve de sentir seu olho brilhar. Ele voltou placidamente para sua rotina, pois não é preciso saber os segredos da quiromancia para prever o futuro daquele imprestável. Sim, ele estava fadado a uma existência sem afeto, sem sentido. Uma existência vazia. Uma vida desperdiçada.

Testamento corona

– Oi, mãe! Tudo bem?

– Oi, filha, tudo bem. Só para dizer que eu deixei tudo preparado.

-Tudo o quê?

– Ué, nunca se sabe. E se eu for direto para o “CTI”? Quando a gente chega lá, num dá tempo de nada. “CTI” é um horror. Nem poderemos conversar. Nem vou poder falar com vocês sobre as coisas. Aliás, não vou poder falar mesmo porque provavelmente estarei entubada.

– Credo, mãe.

– É sério. Só para você saber. Aqui em cima da mesa do escritório já deixei a apólice do seguro de vida. Você e seus irmãos são os beneficiários. Também tem o documento da previdência privada. E os números das contas bancárias e as senhas estão escondidas no fundo da primeira gaveta do meu criado mudo, tá?

– Mas…

– Ah, tem o carro, o apartamento, o lote e a sala. Por favor, dividam na proporção de vinte e cinco por cento para cada um, incluindo o Álvaro. Ah, e por favor, não briguem. E deem toda a assistência que ele precise.

– Mas, mãe, você está sentindo bem?

– Sim, estou ótima. Meu dia foi super produtivo. Fui ao supermercado as sete, sabe né? Nesse horário abre só para os idosos. Impressionante o tanto de gente que está usando máscaras. Será que eu preciso usar máscaras também, filha? Mas máscara tá em falta. Engraçado que tem um monte de gente entrando em parafuso por causa do isolamento, mas eu não tô não. Acho que essa ansiedade não vai me pegar. Eu tenho uma mente muito positiva. Tenho muita coisa para fazer. Já paguei as contas no aplicativo,enviei a minha declaração de imposto de renda, arrumei os armários da cozinha, lavei todas as louças e tupperware com cloro, fiz ginástica online, cuidei das plantas, falei com seu irmão por vídeo chamada. Achei que ele está tão magro. Ele não pode adoecer porque tem a Larissa para cuidar. Não pode pegar. Um corpo magro daquele jeito não aguenta o baque da doença. Ainda mais asmático. Confesso que estou um pouco preocupada. Dá uma ligadinha para ele quando puder.

– Já liguei, mãe.

– Ah, que bom então. Eu dei algumas aulas virtuais também. Todos os alunos assimilaram a modalidade skype das aulas, então tá sendo muito bom. Nem preciso ir mais à escola, que está fechada desde o dia 20.

– Nossa, mãe, que bom que você está bem e que a sua rotina está funcionando. Aqui em casa tá uma loucura…

– Ah, filha, num esquece. Quero ser cremada.